terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Cinema e Emoção: um breve ensaio

Parte [1]

Parte 2/7

É inevitável começar por distinguir, estabelecendo um ponto de partida, as duas faces que a emoção pode envolver num contexto cinematográfico, claro está. O acto de ficar emocionado pode não ser apenas a causa de uma "acção negativa". Uma "acção positiva" também adquire lugar no contexto emotivo e, como se compreenderá, tem uma posição altamente influenciadora nesse tema; se repararmos, é um facto que a emoção advém, na maior parte das vezes, de aspectos negativos, de acções que consideramos repugnáveis - "acções negativas" – e, em consequência de um acto, emocionamo-nos com maior ou menor facilidade consoante o poder (neste caso imagético) dessas acções. Para melhor compreender este facto, e porque já o devia ter feito antes, o que quis dizer com "acções negativas" e "acções positivas" não foi mais do que actos humanos, errados ou correctos; em termos práticos, associamos um "acto negativo" a um assassinato, a uma violação ou a um rapto. É certo que, quando assistimos a uma morte inesperada num filme ou numa série de TV, ficamos susceptíveis à emoção, especialmente se a essa morte for a de uma personagem por quem nutríamos especial afecto - já por isso é que muitos episódios de séries terminam com mortes inesperadas. Da mesma forma, ao assistir à morte de uma criança, ficcionalmente falando, o coração humano não aguentará toda pressão que esta consequência traz e creio piamente que o ser humano fica ainda mais susceptível à emoção nesta situação do que à morte de um qualquer protagonista: sendo uma criança um símbolo de inocência e de fragilidade, um ser que requer protecção constante, como não será possível, por mais frio que seja um coração, de não se emocionar com tal acção?; até porque crianças já todos fomos, já todos experimentamos e facilmente nos revemos naquela situação de impotência. Estes são os actos ou as "acções negativas". No fundo, é o conjunto de comportamentos negativos de uma pessoa que, de livre vontade, exerce uma acção que vai contra os princípios morais comuns, i.e., todos sabemos que é errado matar, violar ou raptar...
Em contrapartida, as "acções positivas" também são passíveis de gerar emoções, independentemente do que, à partida, possam pensar. Estas são acções que geram alegria, procuram causar impacto através de situações felizes: a cena de um primeiro beijo ou de um beijo romântico tão aguardado são "acções positivas" capazes de causar tanto impacto (entenda-se emoção) como uma "acção negativa"; tudo depende da forma como cada um de nós vê cada uma destas situações. Comparativamente, se a morte de uma criança pode ser considerada uma "acção negativa", então o nascimento de uma criança pode muito bem ser uma "acção positiva", especialmente se esse nascimento for uma acção tão religiosamente aguardada por duas personagens que se amam incondicionalmente.
Há que entender e esclarecer esta dualidade básica da emoção: não basta ir contra os nossos princípios para nos causar impacto; às vezes, o sentimento mais puro, um afecto, um carinho e um pequeno gesto são actos tão poderosos que nos levam ao exponencial da emotividade. Como se compreenderá, é óbvio que no Cinema não é só o espectador quem trabalha para atingir o estado emotivo; grande parte dessa responsabilidade, senão mesmo toda, cabe ao realizador que está por detrás de cada acção exposta. Com efeito, uma "acção negativa" pode não causar o impacto desejado no espectador, assim como uma "acção positiva" pode não passar de um frete a que não associamos qualquer tipo de sentimento emotivo. São situações que estão excessivamente relacionadas entre si e só em alguns casos acabam por funcionar correctamente.

6 comentários:

Astrid disse...

Helder, emoções, pensamentos e posições de ser e estar fizeram a delícia de muitos censores e pelos vistos vão continuar a fazer. Também serviram de inspiração para grandes obras, que o diga Orson Welles e Manuel de Oliveira... o O termo espectador já não pode ser usado ou compreendido como dantes... Até a Vodafone convida-nos para uma "experiência sonora" antes da exibição dos filmes. A propósito, tens que assistir The Road (A Estrada) e aí, creio eu, poderás escrever uns 10 ensaios seguidos... Também podes fazer um ensaio sobre (Ensaio sobre a Cegueira, Cidade de Deus e/ou Tropa de Elite (só p/ ficarmos aqui na esfera luso-brasileira)... e eu de espectadora, passo desde já a expectadora... ;)

Beijos, flores e estrelas *****

Helder Magalhaes disse...

Sabes Astrid, o The Road tem-me suscitado algumas dúvidas. Parte de um livro de génio, mas a crítica toda diz que é uma desilusão. Tenho de ver, tenho, e comprovar com os meus próprios olhos ou, neste caso, com as minhas próprias emoções! ;)


Beijo!, do
Helder

Astrid disse...

Eu não leio críticas. Eu pago as entradas e formo a minha própria opinião.

Beijos, flores e estrelas *****

Helder Magalhaes disse...

Claro, cada um acha aquilo que achar!

Mas eu gosto de cuscar o que se vai dizendo e, muitas vezes, o interesse em ver um filme é suscitado pela crítica :)

Bjs.

Astrid disse...

Ou será que a crítica reflecte ipsis litteris os interesses dos distribuidores? É que Astrid já viu tanta coisa... ;)

Beijos, flores e estrelas *****

Helder Magalhaes disse...

Há casos e casos...

lol

beijinhos!, do
Helder