segunda-feira, 1 de março de 2010

Oscars 2010: Precious (Precious: Based on the Novel Push by Sapphire)


Esta preciosidade foi uma das maiores surpresas do ano 2009 - para nós, portugueses, do ano 2010, mas a ideia mantém-se - e, parece-me, já há muito que não se fazia um filme tão violento e real em cinema independente. Claro que o conceito de cinema independente num país onde o Cinema não é uma indústria - ao contrário do que acontece em muitos outros países - pode parecer um absurdo, já que uma produção americana independente é bem mais cara que grande parte dos restantes filmes que se fazem no mundo inteiro; mas, ainda assim, e nesse contexto, é de louvar que se façam filmes de grande qualidade - como é o caso - com orçamentos reduzidos. Não obstante, Precious aparenta ter tido bastantes apoios, pelo menos morais, por ser uma história que merecia, de facto, ser contada. Aliás, não é por acaso que o filme teve ajuda à produção pelo ícone mundial Oprah Winfrey; já anteriormente, Oprah havia participado em cinema, especialmente sob realização de Steven Spielberg, interpretando o papel de Sofia no belíssimo filme A Cor Púrpura (The Color Purple) que, na verdade, praticamente a deu - a si a à protagonista Whoopi Goldberg - a conhecer ao mundo.

Precious, bem lá no fundo, acaba por ter algumas semelhanças com este A Cor Púrpura, não me referindo em particular à história, mas antes à temática. Aliás, antes disso, toda a estética do filme parece-me muito semelhante ou, pelo menos, influenciada pela estética Spielbergiana do A Cor Púrpura. Mais concretamente, Precious pode ser visto como A Cor Púrpura dos tempos modernos, as evidências são claras. Contudo, talvez por ser um filme demasiadamente moderno e verdadeiro, se é que me faço entender, a violência e os maus tratos despontados em quase todas as cenas funcionam como um murro no estômago; é um facto que nos custa ver, quanto mais sentir. Mas é uma crueldade muito verdadeira e que existe algures no mundo, multiplicada por várias regiões, países ou continentes. Muitas Precious, em melhor ou pior situação do que esta aqui retratada, existirão e estarão a ver o filme neste momento e a ver-se naquela situação - um facto lamentável e que, ainda assim, acaba por representar, espero, um microcosmos cingido às classes sociais mais baixas.

Não querendo avançar muito com o que o leitor pode assistir - porque vale a pena ficarmos admirados com a dificuldade das situações e pela forma com que elas são resolvidas - Precious aborda, num conceito geral, a violência e o abuso de menores. Imprimindo uma situação mais ligeira, violência por parte da mãe, abuso sexual por parte do pai e bullying por parte de toda a gente. Imaginar, sequer, estar na mesma situação de Precious é impossível. Ver, é um fenómeno, o murro no estômago de que falava. E, contudo, vemo-nos e sentimo-nos impotentes, inaptos para ajudar, frustrados por não o poder. Mas, Precious é também uma história e uma lição de vida, de como é ainda possível renascer das cinzar, de como nós somos os únicos responsáveis pela nossa vida e que a podemos mudar com força de vontade e apoio por parte de quem nos é querido.
Estamos, pois, perante mais um filme notável na corrida aos Oscars. Não será certamente o grande vencerdor da noite, mas a qualidade dos actores merece ser, sem qualquer dúvida, distinguida. Falando em apostas, pelo menos Mo'Nique ganhará o Oscar de Melhor Actriz num Papel Secundário. Fico a torcer para que haja uma ou outra surpresa, como de resto este filme demonstrou ser.

2 comentários:

Renato_Seara disse...

É um dos filmes nomeados, que mais interesse me desperta. Ainda não o vi, mas pelo que vi em anúncios e no trailer certamente é um dos favoritos aos oscares.

Já agora :) és o Blog bem desenhado da semana.

Helder Magalhaes disse...

Tens de o ver, Renato!!

Conhecendo-te como te conheço, tenho a certeza que vais gostar e ficar (ainda mais) revoltado. ;)

E obrigado pelo destaque no Blog Bem Desenhado da Semana!

Abraço.