sexta-feira, 5 de março de 2010

Oscars 2010: Nas Nuvens (Up In The Air)



A par de Precious, e ainda que nada tenham em comum, Nas Nuvens é também uma grande surpresa e merece muito bem o destaque feito pela Academia. Digamos que, depois do interessante, mas não tanto inovador Juno, o novo filme de Jason Reitman funciona tal como uma terapia, quase procurando explicar o que muitos empregadores não conseguem e o que muitos empregados não entendem. Extremamente actual, principalmente (mas não propositadamente) no contexto político e social, não só português, mas também do resto do mundo, aborda um dos mais preocupantes temas que assombram qualquer pessoa nos dias que correm: o desemprego. Interessantemente, fá-lo com uma certa ligeireza, quase comédia – não deixando de ser duro quando deve – ainda que procure explorar os vários estados de emoção associados à reacção após a notícia do despedimento.
George Clooney, num excelente papel e que dificilmente poderia ser melhor interpretado, é Ryan Bingham e tem um daqueles empregos bastante irónicos e antitéticos: despede pessoas. Contudo, adivinhamos nós que, dada a dificuldade em lidar com questões psicológicas (e, por vezes, sociológicas) do desempregado, Ryan é um frustrado. Pois aí é que estamos bem enganados. Melhor do que ninguém, Ryan Bingham leva o seu emprego com bastante seriedade e moralidade, voando de Estado em Estado e, por isso mesmo, vive constantemente lá em cima, “nas nuvens”, tendo aprendido e incorporado todo este esquema e estrutura que está na base do seu dia-a-dia. Além disso, embora solitário, talvez afectado pelos sentimentos das pessoas que despede, concentra-se em acumular milhas com o voos que faz - funcionam, parece-me, como um acumular de pontos que depois podem ser gastos em viagens gratuitas, dependendo da distância - e nas palestras motivacionais da sua autoria sobre o excesso de bagagem emocional, metaforiazada pelo excesso de bagagem de elementos físicos da vida de cada pessoa.


Mas quando tudo parecia correr bem (e com perspectivas de que assim continuaria a ser), Natalie Keener, recém-licenciada, aparece com uma ideia inovadora para os despedimentos. Ao aproveitar as novas tecnologias da video-conferência, Natalie propõe um novo sistema em que o despedidor nunca precisará de sair do seu escritório para que o seu trabalho seja feito: uma ideia, no mínimo, imoral e com falta de sensibilidade, tratando-se de um trabalho delicado como este. Então, Ryan leva Natalie, em jeito de professor e aluno, preparando-a para o que o seu trabalho realmente significa e, com isso, fazê-la ver do erro que tomou ao apresentar a proposta da video-conferência. O que Ryan não estava à espera (e ao cruzar-se, profissionalmente, com Alex Goran) é que toda a sua vida emocional será posta em causa com a aventura que está prestes a tomar...

Nas Nuvens é um exercício bastante interessante, a partir do livro homónimo de Walter Kirn, balançando entre o drama e a comédia, mas sempre conotado de uma carga emocional extraordiodinária e a vários níveis. Em termos técnicos, o filme representa, de todas as formas, aquilo a que se chama academismo; não há nada a mais e não há nada a menos, o filme assim é porque assim tinha de ser e nada mais do que isso seria exigido. Embora as nomeações, claramente bem justificadas, sejam para os actores e para o realizador, creio que a concorrência seja demasiadamente forte e o mais certo é que Nas Nuvens - porque, infelizmente, todos não podem ser vencedores - não leve nenhum galardão.

2 comentários:

Bruno Teixeira disse...

Para quando um post do tão aguardado - pelo menos, por mim - "Alice", do genial Tim Burton?!

Lol

Nota: não estou, de maneira alguma, a tentar influenciar o que escreves (ou vais escrever) neste teu espaço. Mas sabes como é, anda por aí uma "febre" sobre "liberdade de expressão", "pressões", e mais não sei quê... todo o cuidado é pouco lol

Helder Magalhaes disse...

Bruno, eu compreendo...

Mas terei todo o gosto em fazer uma referência ao "Alice", até porque o espero ver assim que possa.

Abraço!