quinta-feira, 11 de março de 2010

RUBRICA: «O PÁTIO DAS CONVERSAS»


Apaixonantes e inovadoras!
Assim pretendem ser as minhas conversas no novo espaço deste blogue:

O Pátio das Conversas

Com uma periodicidade regular - assim o espero - será aqui publicado um conjunto de diálogos, entre a entrevista e a conversa, comigo e com uma personalidade da arte cinematográfica.
No meio de actores, realizadores, compositores, produtores, argumentistas e outros tais, proponho-me a uma conversa informal, explorando o trabalho específico de cada um deles e que tanto interessará a qualquer cinéfilo ou simples leitor deste blogue.

Grandes nomes da cultura portuguesa (e internacional) estarão à conversa comigo, numa entrevista exclusiva, entre os quais - posso já adiantar e confirmar - os realizadores João Salaviza e Jorge Paixão da Costa. Outros se seguirão, mas o melhor mesmo é aguardar por mais novidades.


domingo, 7 de março de 2010

Oscars 2010: Um Homem Sério (A Serious Man)


Um Homem Sério, dos irmãos Coen, será a última referência que aqui deixo antes da cerimónia dos Oscars 2010, que decorrerá dentro de algumas horas, até porque, na verdade, estes foram os filmes que vi, nomeados na categoria de melhor filme, e escrever sobre o que não vi e o que não sei não faz muito o meu género.
Uma vez mais, os irmãos Coen são muito fiéis ao que sempre fizeram e costumam fazer. Tenho visto alguns filmes da carreira de ambos - escassas vezes se separaram - e, evidentemente, sobressai esta forma retraída (ou contida) nas emoções e o gosto pelo insólito, cultivado por uma narrativa visual de excelência. Um Homem Sério tem todas estas características, muito direccionado para os amantes do trabalho dos irmãos e não tanto para as massas, como de resto são quase todos os seus filmes.
O filme conta, muito concretamente, uma fase muito difícil da vida de Larry Gopnik. Década de 70, numa América sossegada, Larry é um Judeu e Professor de Física que vê, num abrir e fechar de olhos, a vida a virar completamente do avesso: desde a descoberta da traição da sua mulher até às constantes preocupações com o cunhado, passado pelas ofertas de suborno que lhe têm chegado por um aluno desesperado, ao mesmo tempo que o director da Universidade recebe cartas que o difamam enquanto professor. Mais ainda, Larry sente-se quase ameaçado com a presença de Sy, o amante da sua esposa, enquanto tenta resolver os conflitos do seu filho - problemas disciplinares na escola Hebraica - e da sua filha - sorrateiramente tira dinheiro da carteira do pai para uma operação ao nariz. Contudo, apesar de Larry se ver e sentir numa situação de desespero, porque é "um homem sério", vai procurar resolver todas estas situações adversas com a maior seriedade e moralidade possível. No fundo, trata-se de estabelecer um ponto de equilíbrio na sua vida, ponderar os acontecimentos e, com isso, tornar-se nesse homem sério que tanto pretende ser, contando, para isso, com a ajuda de vários Rabis.
Com isto, facilmente se apreende que Um Homem Sério é conotado de imensas preciosidades humorísticas, ainda que contidas - o humor negro, no verdadeiro sentido da expressão - e os irmãos Coen são peritos nestas situações incomuns, no desenrolar dos acontecimentos, cada vez mais difíceis e insólitos.
O filme, nomeado apenas em duas categorias - melhor filme e melhor argumento - não será certamente a obra-prima dos irmãos Coen, mas antes uma confirmação do bom trabalho que ambos têm desenvolvido ao longo dos anos, não só como realizadores, mas também como bons contadores de histórias - daí se justificando as nomeações recebidas. Apesar de tudo, e à semelhança de Nas Nuvens, a concorrência deste ano é muito forte e tudo indica que também Um Homem Sério acabara a noite sem galardão.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Oscars 2010: Nas Nuvens (Up In The Air)



A par de Precious, e ainda que nada tenham em comum, Nas Nuvens é também uma grande surpresa e merece muito bem o destaque feito pela Academia. Digamos que, depois do interessante, mas não tanto inovador Juno, o novo filme de Jason Reitman funciona tal como uma terapia, quase procurando explicar o que muitos empregadores não conseguem e o que muitos empregados não entendem. Extremamente actual, principalmente (mas não propositadamente) no contexto político e social, não só português, mas também do resto do mundo, aborda um dos mais preocupantes temas que assombram qualquer pessoa nos dias que correm: o desemprego. Interessantemente, fá-lo com uma certa ligeireza, quase comédia – não deixando de ser duro quando deve – ainda que procure explorar os vários estados de emoção associados à reacção após a notícia do despedimento.
George Clooney, num excelente papel e que dificilmente poderia ser melhor interpretado, é Ryan Bingham e tem um daqueles empregos bastante irónicos e antitéticos: despede pessoas. Contudo, adivinhamos nós que, dada a dificuldade em lidar com questões psicológicas (e, por vezes, sociológicas) do desempregado, Ryan é um frustrado. Pois aí é que estamos bem enganados. Melhor do que ninguém, Ryan Bingham leva o seu emprego com bastante seriedade e moralidade, voando de Estado em Estado e, por isso mesmo, vive constantemente lá em cima, “nas nuvens”, tendo aprendido e incorporado todo este esquema e estrutura que está na base do seu dia-a-dia. Além disso, embora solitário, talvez afectado pelos sentimentos das pessoas que despede, concentra-se em acumular milhas com o voos que faz - funcionam, parece-me, como um acumular de pontos que depois podem ser gastos em viagens gratuitas, dependendo da distância - e nas palestras motivacionais da sua autoria sobre o excesso de bagagem emocional, metaforiazada pelo excesso de bagagem de elementos físicos da vida de cada pessoa.


Mas quando tudo parecia correr bem (e com perspectivas de que assim continuaria a ser), Natalie Keener, recém-licenciada, aparece com uma ideia inovadora para os despedimentos. Ao aproveitar as novas tecnologias da video-conferência, Natalie propõe um novo sistema em que o despedidor nunca precisará de sair do seu escritório para que o seu trabalho seja feito: uma ideia, no mínimo, imoral e com falta de sensibilidade, tratando-se de um trabalho delicado como este. Então, Ryan leva Natalie, em jeito de professor e aluno, preparando-a para o que o seu trabalho realmente significa e, com isso, fazê-la ver do erro que tomou ao apresentar a proposta da video-conferência. O que Ryan não estava à espera (e ao cruzar-se, profissionalmente, com Alex Goran) é que toda a sua vida emocional será posta em causa com a aventura que está prestes a tomar...

Nas Nuvens é um exercício bastante interessante, a partir do livro homónimo de Walter Kirn, balançando entre o drama e a comédia, mas sempre conotado de uma carga emocional extraordiodinária e a vários níveis. Em termos técnicos, o filme representa, de todas as formas, aquilo a que se chama academismo; não há nada a mais e não há nada a menos, o filme assim é porque assim tinha de ser e nada mais do que isso seria exigido. Embora as nomeações, claramente bem justificadas, sejam para os actores e para o realizador, creio que a concorrência seja demasiadamente forte e o mais certo é que Nas Nuvens - porque, infelizmente, todos não podem ser vencedores - não leve nenhum galardão.