terça-feira, 23 de março de 2010

JORGE PAIXÃO DA COSTA

no O Pátio das Conversas


Informação no IMDB sobre Jorge Paixão da Costa


Jorge Paixão da Costa (n. Lisboa, 13 de Outubro de 1954), realizador português de cinema e televisão.


Licenciou-se em Cinematografia pela Universidade de Estocolmo no ano de 1982 e frequentou, em Berlim, a Masters School of the European Film Academy, ano de 1992. No cinema, é autor de quatro longas-metragens, destacando-se Adeus Princesa (1994) e O Mistério da Estrada de Sintra (2007) como dois dos seus mais populares filmes.


Assinou ainda mais de dez produções televisivas, entre telefilmes (2005 - 29 Golpes, A Escada e O Mergulho), séries (2004 - A Ferreirinha, 2002 - Lusitana Paixão, 2001 - Sociedade Anónima, 2000 - A Raia dos Medos, 1999 - Não és Homem Não És Nada, 1996 - Polícias, 1990 - Os Melhores Anos) e algumas novelas (2002 - Lusitana Paixão, 1996 - Roseira Brava, 1995 - Desencontros, 1994 - Na Paz dos Anjos).


Desde 1997, Jorge Paixão da Costa lecciona na Universidade Losófona de Humanidade e Tecnologias.

quinta-feira, 11 de março de 2010

RUBRICA: «O PÁTIO DAS CONVERSAS»


Apaixonantes e inovadoras!
Assim pretendem ser as minhas conversas no novo espaço deste blogue:

O Pátio das Conversas

Com uma periodicidade regular - assim o espero - será aqui publicado um conjunto de diálogos, entre a entrevista e a conversa, comigo e com uma personalidade da arte cinematográfica.
No meio de actores, realizadores, compositores, produtores, argumentistas e outros tais, proponho-me a uma conversa informal, explorando o trabalho específico de cada um deles e que tanto interessará a qualquer cinéfilo ou simples leitor deste blogue.

Grandes nomes da cultura portuguesa (e internacional) estarão à conversa comigo, numa entrevista exclusiva, entre os quais - posso já adiantar e confirmar - os realizadores João Salaviza e Jorge Paixão da Costa. Outros se seguirão, mas o melhor mesmo é aguardar por mais novidades.


domingo, 7 de março de 2010

Oscars 2010: Um Homem Sério (A Serious Man)


Um Homem Sério, dos irmãos Coen, será a última referência que aqui deixo antes da cerimónia dos Oscars 2010, que decorrerá dentro de algumas horas, até porque, na verdade, estes foram os filmes que vi, nomeados na categoria de melhor filme, e escrever sobre o que não vi e o que não sei não faz muito o meu género.
Uma vez mais, os irmãos Coen são muito fiéis ao que sempre fizeram e costumam fazer. Tenho visto alguns filmes da carreira de ambos - escassas vezes se separaram - e, evidentemente, sobressai esta forma retraída (ou contida) nas emoções e o gosto pelo insólito, cultivado por uma narrativa visual de excelência. Um Homem Sério tem todas estas características, muito direccionado para os amantes do trabalho dos irmãos e não tanto para as massas, como de resto são quase todos os seus filmes.
O filme conta, muito concretamente, uma fase muito difícil da vida de Larry Gopnik. Década de 70, numa América sossegada, Larry é um Judeu e Professor de Física que vê, num abrir e fechar de olhos, a vida a virar completamente do avesso: desde a descoberta da traição da sua mulher até às constantes preocupações com o cunhado, passado pelas ofertas de suborno que lhe têm chegado por um aluno desesperado, ao mesmo tempo que o director da Universidade recebe cartas que o difamam enquanto professor. Mais ainda, Larry sente-se quase ameaçado com a presença de Sy, o amante da sua esposa, enquanto tenta resolver os conflitos do seu filho - problemas disciplinares na escola Hebraica - e da sua filha - sorrateiramente tira dinheiro da carteira do pai para uma operação ao nariz. Contudo, apesar de Larry se ver e sentir numa situação de desespero, porque é "um homem sério", vai procurar resolver todas estas situações adversas com a maior seriedade e moralidade possível. No fundo, trata-se de estabelecer um ponto de equilíbrio na sua vida, ponderar os acontecimentos e, com isso, tornar-se nesse homem sério que tanto pretende ser, contando, para isso, com a ajuda de vários Rabis.
Com isto, facilmente se apreende que Um Homem Sério é conotado de imensas preciosidades humorísticas, ainda que contidas - o humor negro, no verdadeiro sentido da expressão - e os irmãos Coen são peritos nestas situações incomuns, no desenrolar dos acontecimentos, cada vez mais difíceis e insólitos.
O filme, nomeado apenas em duas categorias - melhor filme e melhor argumento - não será certamente a obra-prima dos irmãos Coen, mas antes uma confirmação do bom trabalho que ambos têm desenvolvido ao longo dos anos, não só como realizadores, mas também como bons contadores de histórias - daí se justificando as nomeações recebidas. Apesar de tudo, e à semelhança de Nas Nuvens, a concorrência deste ano é muito forte e tudo indica que também Um Homem Sério acabara a noite sem galardão.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Oscars 2010: Nas Nuvens (Up In The Air)



A par de Precious, e ainda que nada tenham em comum, Nas Nuvens é também uma grande surpresa e merece muito bem o destaque feito pela Academia. Digamos que, depois do interessante, mas não tanto inovador Juno, o novo filme de Jason Reitman funciona tal como uma terapia, quase procurando explicar o que muitos empregadores não conseguem e o que muitos empregados não entendem. Extremamente actual, principalmente (mas não propositadamente) no contexto político e social, não só português, mas também do resto do mundo, aborda um dos mais preocupantes temas que assombram qualquer pessoa nos dias que correm: o desemprego. Interessantemente, fá-lo com uma certa ligeireza, quase comédia – não deixando de ser duro quando deve – ainda que procure explorar os vários estados de emoção associados à reacção após a notícia do despedimento.
George Clooney, num excelente papel e que dificilmente poderia ser melhor interpretado, é Ryan Bingham e tem um daqueles empregos bastante irónicos e antitéticos: despede pessoas. Contudo, adivinhamos nós que, dada a dificuldade em lidar com questões psicológicas (e, por vezes, sociológicas) do desempregado, Ryan é um frustrado. Pois aí é que estamos bem enganados. Melhor do que ninguém, Ryan Bingham leva o seu emprego com bastante seriedade e moralidade, voando de Estado em Estado e, por isso mesmo, vive constantemente lá em cima, “nas nuvens”, tendo aprendido e incorporado todo este esquema e estrutura que está na base do seu dia-a-dia. Além disso, embora solitário, talvez afectado pelos sentimentos das pessoas que despede, concentra-se em acumular milhas com o voos que faz - funcionam, parece-me, como um acumular de pontos que depois podem ser gastos em viagens gratuitas, dependendo da distância - e nas palestras motivacionais da sua autoria sobre o excesso de bagagem emocional, metaforiazada pelo excesso de bagagem de elementos físicos da vida de cada pessoa.


Mas quando tudo parecia correr bem (e com perspectivas de que assim continuaria a ser), Natalie Keener, recém-licenciada, aparece com uma ideia inovadora para os despedimentos. Ao aproveitar as novas tecnologias da video-conferência, Natalie propõe um novo sistema em que o despedidor nunca precisará de sair do seu escritório para que o seu trabalho seja feito: uma ideia, no mínimo, imoral e com falta de sensibilidade, tratando-se de um trabalho delicado como este. Então, Ryan leva Natalie, em jeito de professor e aluno, preparando-a para o que o seu trabalho realmente significa e, com isso, fazê-la ver do erro que tomou ao apresentar a proposta da video-conferência. O que Ryan não estava à espera (e ao cruzar-se, profissionalmente, com Alex Goran) é que toda a sua vida emocional será posta em causa com a aventura que está prestes a tomar...

Nas Nuvens é um exercício bastante interessante, a partir do livro homónimo de Walter Kirn, balançando entre o drama e a comédia, mas sempre conotado de uma carga emocional extraordiodinária e a vários níveis. Em termos técnicos, o filme representa, de todas as formas, aquilo a que se chama academismo; não há nada a mais e não há nada a menos, o filme assim é porque assim tinha de ser e nada mais do que isso seria exigido. Embora as nomeações, claramente bem justificadas, sejam para os actores e para o realizador, creio que a concorrência seja demasiadamente forte e o mais certo é que Nas Nuvens - porque, infelizmente, todos não podem ser vencedores - não leve nenhum galardão.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Oscars 2010: Avatar



Seria estranho querer fazer um apanhado geral sobre os filmes que vi e que estão em competição aos Oscars 2010 sem referenciar Avatar, o filme que quase ninguém conhece e que quase ninguém viu.
Pois bem, a começar, e porque é preciso dar o braço a torcer, há que congratular o James Cameron por ter conseguido o que nenhum outro realizador, no mundo, conseguiu até agora: bater o recorde mundial de bilheteiras, anteriormente alcançado por si próprio! Disto podemos ter a certeza, se não for por outro motivo, Avatar já consegui marcar a história do Cinema. Claro que, segundo estudos recentemente feitos, devido à inflação, a posição de Avatar é lá para o número 30, já que o primeiro lugar continua a ser da incontornável obra-prima de Victor Flemming, E Tudo o Vento Levou (Gone with the wind) que, já em 1939 - ano de estreia - superou os 200 milhões de dólares. Mas, ainda assim, já lá dizia Camões que "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades" e fazer um filme com o sucesso de Avatar é, hoje em dia, quase impossível - lembremo-nos que, com a mudança dos tempos, surgiu a pirataria, o dvd, o blu-ray, a crise... .


Mas, quanto ao filme que aqui está em causa, aproveito também para fazer uma pequena referência ao que por aí tenho lido e ouvido acerca do argumento que, dizem, é fraco e com falta de originalidade. Pois bem, parece-me a mim que, ou as pessoas dizem aquilo que realmente sabem ou que o digam só se realmente tiverem alguma coisa de útil para dizer; caso contrário, mais vale não dizer nada. O certo é que se fazem por aí imensas analogias com o Pocahontas e que o filme não passa de uma cópia e não-sei-que-mais e blá-blá-blá. Para ser mais concreto, o filme ultrapassa tudo isso. Aliás, a meu ver, o filme acaba mesmo por ter mais semelhanças com o Danças Com Lobos (Dances With Wolves) - 1990, realizado por Kevin Costner -, já que falamos em argumentos, do que com o Pocahontas, embora as semelhanças sejam evidentes, não descuro a hipótese. Contudo, talvez esses críticos não saibam que o Danças com Lobos ganhou, nesse ano, o Oscar de melhor argumento (entre muitos outros, incluindo de melhor filme e de melhor realizador) e agora vêm dizer que o argumento do Avatar é fraco. Essa não vai comigo. Avatar é um excelente filme, bem construído, bem pensado e muito bem concebido.

Há ainda um outro ponto que não posso deixar de referir e que se prende com esta aptidão, quase talento, mostrada por James Cameron em querer e em tentar fazer de tudo para desenvolver novas técnicas e tecnologias do processo criativo, sempre aliadas à concepção do cinema enquanto arte, constituindo, por isso mesmo, um excelente exemplo da perfeita conjugação da arte e da indústria. Na verdade, se não fosse a sua insistência nesta tridimensionalidade, ainda hoje teríamos filmes em 3D feitos com câmaras fixas e do tamanho de uma máquina de lavar roupa - sim, li de fonte segura - em vez desta portabilidade que Cameron lhes conferiu. Aliás, já quando concebia o Titanic, Cameron foi responsável por ter desenvolvido uma nova câmara de vídeo (da Panasonic) capaz de suportar a pressão da água nas profundezas do Oceano, embora essa câmara, creio que em película de 16 mm, só conseguisse gravar 11 ou 12 minutos de cada vez; depois era preciso mudar a bobine, coisa que, debaixo de água e àquela pressão, seria complicado. Por isso mesmo, esta é mais uma razão da importância de Avatar no contexto da história do cinema e também o porquê de ser importante ver o filme e saber o que o futuro poderá trazer - uma vez mais, "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades" e, como tal, não podemos, obviamente, estar à espera que o Cinema, enquanto arte, em toda a sua forma e conteúdo influenciado pelo tempo em que se insere, não altere essa forma com a mudança dos tempos.


Mas, como referi umas linhas atrás, Avatar é muito mais do que tudo isto e ultrapassa qualquer analogia, seja qual for o filme. Penso que, pela primeira vez, assisti a um filme onde o conceito da tridimensionalidade fazia todo o sentido; repare-se que a imagem em 3D já não deve ser usada para puro entretenimento do público, as exigências devem ser outras, porque as experiências nesse campo já foram suficientes. E Avatar consegue isso muito bem - aliás, não foi por acaso que James Cameron esperou 10 anos para o poder filmar, trazendo esta nova tecnologia da imagem em 3D como nunca foi vista. Efectivamente, só com esta tecnologia foi possível entender a beleza de Pandora, só assim foi possível captar a nossa atenção, manipulando-nos a querer, de alguma forma, saltar para esse mundo tão belo e tão musical. E, por breves momentos, leva-nos mesmo até esse mundo, ainda que digitalmente e com uns óculos desconfortáveis, e proporciona-nos uma experência notável em primeira pessoa.
Em último ponto, e porque o filme é exemplar em cinematografia, direcção artística, realização, edição e outros tais, não sendo por isso tão importante referir o que já se sabe, é preciso ter em muita atenção a banda sonora, uma vez mais, dirigida por James Horner, que já havia sido o autor da banda sonora de Titanic. Confesso que, assim que vi o filme, este tinha sido o único aspecto negativo que conseguia apreender. Contudo, e por curiosidade, optei por ouvir a banda sonora desprovida da imagem - algo que eu já referi algures por aqui, creio, acerca das capacidades de percepção do filme pela sua música. Com efeito, a experência levou-me a crer que a banda sonora, durante o filme, é totalmente consumida pela imagem e revela-se mesmo impotente embora, por vezes, consiga desempenhar o seu papel. Ao ouvir a música de Avatar, mudei completamente a minha opinião: a banda sonora é quase tão boa como o filme! Digamos, de passagem, que mesmo a banda sonora do Titanic, quer se goste ou não da Celine Dion, tem bastante qualidade e fiquei muito supreendido - coisa que, durante o filme, não consegui perceber - quando dei conta das imensas influências, por vezes a mesma conjugação de notas, em relação à do Titanic, ou o autor não seria o mesmo, está claro. Ainda assim, era um pormenor que não podia deixar passar e que me surpreendeu bastante, embora a suposta canção Love Theme - interpretada por Leona Lewis e feita, evidentemente, para ter o mesmo sucesso que a Celine Dion com a My Heart Will Go On - tenha caído, completamente, por terra.
Para finalizar, parece-me que Avatar vai ser mesmo o grande vencedor da noite. Melhor filme, Direcção artística, Cinematografia, Realização, Edição de Som, Mistura de Som e Efeitos Visuais podem, desde já, ser dados como certos.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Oscars 2010: Precious (Precious: Based on the Novel Push by Sapphire)


Esta preciosidade foi uma das maiores surpresas do ano 2009 - para nós, portugueses, do ano 2010, mas a ideia mantém-se - e, parece-me, já há muito que não se fazia um filme tão violento e real em cinema independente. Claro que o conceito de cinema independente num país onde o Cinema não é uma indústria - ao contrário do que acontece em muitos outros países - pode parecer um absurdo, já que uma produção americana independente é bem mais cara que grande parte dos restantes filmes que se fazem no mundo inteiro; mas, ainda assim, e nesse contexto, é de louvar que se façam filmes de grande qualidade - como é o caso - com orçamentos reduzidos. Não obstante, Precious aparenta ter tido bastantes apoios, pelo menos morais, por ser uma história que merecia, de facto, ser contada. Aliás, não é por acaso que o filme teve ajuda à produção pelo ícone mundial Oprah Winfrey; já anteriormente, Oprah havia participado em cinema, especialmente sob realização de Steven Spielberg, interpretando o papel de Sofia no belíssimo filme A Cor Púrpura (The Color Purple) que, na verdade, praticamente a deu - a si a à protagonista Whoopi Goldberg - a conhecer ao mundo.

Precious, bem lá no fundo, acaba por ter algumas semelhanças com este A Cor Púrpura, não me referindo em particular à história, mas antes à temática. Aliás, antes disso, toda a estética do filme parece-me muito semelhante ou, pelo menos, influenciada pela estética Spielbergiana do A Cor Púrpura. Mais concretamente, Precious pode ser visto como A Cor Púrpura dos tempos modernos, as evidências são claras. Contudo, talvez por ser um filme demasiadamente moderno e verdadeiro, se é que me faço entender, a violência e os maus tratos despontados em quase todas as cenas funcionam como um murro no estômago; é um facto que nos custa ver, quanto mais sentir. Mas é uma crueldade muito verdadeira e que existe algures no mundo, multiplicada por várias regiões, países ou continentes. Muitas Precious, em melhor ou pior situação do que esta aqui retratada, existirão e estarão a ver o filme neste momento e a ver-se naquela situação - um facto lamentável e que, ainda assim, acaba por representar, espero, um microcosmos cingido às classes sociais mais baixas.

Não querendo avançar muito com o que o leitor pode assistir - porque vale a pena ficarmos admirados com a dificuldade das situações e pela forma com que elas são resolvidas - Precious aborda, num conceito geral, a violência e o abuso de menores. Imprimindo uma situação mais ligeira, violência por parte da mãe, abuso sexual por parte do pai e bullying por parte de toda a gente. Imaginar, sequer, estar na mesma situação de Precious é impossível. Ver, é um fenómeno, o murro no estômago de que falava. E, contudo, vemo-nos e sentimo-nos impotentes, inaptos para ajudar, frustrados por não o poder. Mas, Precious é também uma história e uma lição de vida, de como é ainda possível renascer das cinzar, de como nós somos os únicos responsáveis pela nossa vida e que a podemos mudar com força de vontade e apoio por parte de quem nos é querido.
Estamos, pois, perante mais um filme notável na corrida aos Oscars. Não será certamente o grande vencerdor da noite, mas a qualidade dos actores merece ser, sem qualquer dúvida, distinguida. Falando em apostas, pelo menos Mo'Nique ganhará o Oscar de Melhor Actriz num Papel Secundário. Fico a torcer para que haja uma ou outra surpresa, como de resto este filme demonstrou ser.